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sexta-feira, 6 de julho de 2012

CRÔNICA " O RONCO"

O ronco

Por João Paulo da Silva ( blog as crônicas do João)

Chamar o ronco do Osvaldo de ronco era eufemismo. Ronco é o ruído que você e eu fazemos dormindo. Não era o caso do Osvaldo. O dele estava mais para aquele barulho que motor de caminhão velho faz. Não, minto. Era pior. Sabe o som que vem de dentro das cavernas nos filmes de dragão? Pronto. Algo semelhante. Uma coisa horrorosa. De tão alto, ouvia-se até do lado de fora da casa. Dava a impressão de que iria derrubar as paredes. Com exceção da dona Margarida, casada com o Osvaldo há 40 anos, ninguém agüentava o ronco estrondoso. Os filhos, assim que puderam, casaram e saíram de casa. Dona Margarida não tinha essa opção. Quer dizer, até tinha, porém o amor foi maior do que o ronco. Por mais incrível que isso possa parecer nos dias de hoje. De certa forma, a esposa acabou se acostumando com a sinfonia apocalíptica do marido. A resignação, evidentemente, veio com o tempo, como quase tudo na vida. Os anos se encarregaram de tornar habitual a poluição sonora do Osvaldo. Chegou uma época, inclusive, em que dona Margarida era capaz de acordar com uma buzina na rua, mas não mais com os rugidos do marido. E ainda há gente que diz que a rotina não tem seu lado bom...

É claro que nos primeiros anos do casamento as noites de sono foram dificílimas, se é que se pode falar em noites de sono. Era um cutuca daqui, empurra dali, sacode dacolá. Com muita insistência, o sujeito mudava de posição e o barulho animalesco cessava. Mas só por alguns instantes. Pouco tempo depois, o som da tuba do capeta retornava ainda mais ensurdecedor. Não bastasse o ronco, dona Margarida ainda teve de enfrentar a incredulidade do Osvaldo. Afinal, todo roncador tem convicção de que não ronca e até se ofende se você persiste na acusação.
- Roncando? Eu? Impossível! Eu não ronco, Margarida.
- Como não, Osvaldo?! E por acaso tinha alguém com uma britadeira dentro de casa essa noite?! Os vizinhos já estão até comentando. Dizem que parecia um bicho. Deu pra ouvir na esquina. Eu nem consegui dormir direito.
- Mas que exagero, mulher. Ninguém ronca tão alto assim. E outra. Eu tenho convicção de que não ronco.
- Ah, é?! E como você pode ter tanta certeza, seu sabichão?!
- Simples, ué. Eu não escuto nada durante a noite. “Penso, logo existo”, disse aquele filósofo. Então, pela lógica, se não escuto, logo não ronco.

Durante algum tempo, dona Margarida ficou nessa ladainha, afirmando que o marido roncava muito e ele negando até sob tortura. Entretanto, antes de resignar-se ao fato, dona Margarida ainda tentou provar “cientificamente” que o Osvaldo se transformava num verdadeiro monstro do pântano enquanto dormia. Comprou um pequeno gravador, desses que os jornalistas usam, e decidiu registrar os sons de uma noite inteira de sono do marido. E assim o fez. No dia seguinte, na mesa do café da manhã, ela mostrou a gravação ao Osvaldo.
- Querido, escuta isso. Vê se você reconhece. – disse dona Margarida, ligando o gravador no máximo.

Instantes depois, a sala foi inundada por um barulho que mais parecia vir das profundezas da terra. O Osvaldo estranhou de imediato.
- O que é isso, Margarida?! Gravou um javali dormindo?!
- Não reconhece sua própria criatura, meu bem?! Isso é você, Osvaldo. É o seu ronco.
- Que é isso, mulher! É claro que isso não sou eu. Esse barulho cavernoso não pode sair de mim, não. Você tá é querendo me enganar. Gravou um animal qualquer e meteu uns efeitos especiais nesse gravadorzinho aí, só pra me enrolar.
- Que efeitos especiais o quê, Osvaldo?! Isso aqui é uma prova concreta.
- E quem garante que sou eu, e não um bicho? Você por acaso também filmou?
- Filmar, eu não filmei. Só gravei o som. Mas eu sei que é você, Osvaldo.
- Isso não quer dizer nada, querida. Pra mim continua sendo um javali ou até mesmo um mamute.

Não tinha jeito. O Osvaldo levava o problema na gozação. Nem ligava. Fazia ouvido de mercador para as reclamações da mulher. Ou melhor, fazia ouvido de roncador. Por outro lado, era o homem com o qual dona Margarida sempre sonhou. Carinhoso, companheiro, gentil, atencioso, engraçado e, principalmente, não falava “menas”. Só tinha um defeito: o maldito ronco. Dona Margarida, porém, acreditava num conselho que ouvira da própria mãe muitos anos atrás. “Minha filha, se um dia você casar com um homem que ronca, e mesmo assim continuar amando o sujeito, é sinal de que este amor sobreviverá a todos os obstáculos.”. A mãe do Osvaldo, por sua vez, também dava conselhos. “Meu filho, se você um dia encontrar uma mulher que suporte seus roncos, case-se com ela imediatamente.”, dizia. Foi o que aconteceu. O ronco selou a união. E a vida seguiu seu curso por anos a fio.

Osvaldo sempre fora barrigudo. Mas, com o tempo e o casamento (às vezes uma combinação explosiva), a pança foi ficando maior. A verdade era que, à medida que o Osvaldo crescia para os lados, o ronco piorava, e dona Margarida passou a se preocupar com a saúde do marido, embora o ruído não a incomodasse mais. Chegou a pedir que ele procurasse um médico, disse que tinha visto na TV uma reportagem sobre os males do ronco, da apneia do sono e os perigos de se ter uma parada respiratória. Tudo em vão. Ele sempre desconversava. Dizia que ia procurar um doutor amigo da família, mas não saia do canto. Meses depois, o Osvaldo começou a dar umas paradinhas no ronco enquanto dormia, como fazem as baterias das escolas de samba na avenida.

De tão acostumada com o concerto tenebroso do marido, dona Margarida estranhava quando ele parava de roncar. Já tinha mesmo apurado o ouvido. Surpreendida pelo silêncio no meio da noite, ela o cutucava para que ele pegasse no tranco.
- Osvaldo? Ô, Osvaldo? Não tá roncando por quê?
- Porque tô acordado, Margarida. Já viu alguém roncar acordado?
- Não, né?! Mas sei lá. De você eu espero tudo. E acordou por quê?
- Ouvi um barulho grande.
- Onde? No quintal? Será que é ladrão?
- Não é ladrão, não. O barulho veio daqui do quarto.
- Mas que tipo de barulho foi esse?
- Não sei direito. Parecia um ronco.
- Tá vendo?! Não falei que você roncava?!

Os dois riram, abraçaram-se e voltaram a dormir. O Osvaldo era mesmo um gozador.

As paradinhas no ronco ainda se seguiram por um bom tempo, com dona Margarida acordando para verificar o motivo. Mas um dia o Osvaldo parou de roncar definitivamente, e não acordou nem mesmo com os apelos da esposa para que voltasse a fazer barulho. A morte do marido condenou dona Margarida ao vazio e ao silêncio. Para ela, era estranho não ouvi-lo mais roncar. A calmaria das madrugadas tornou-se ensurdecedora, um empecilho ao sono. Como seguiria a vida desse jeito? Não havia uma só posição na cama que lhe permitisse repousar. Sentia tanta falta do Osvaldo quanto dos sons dele.

Outro dia, porém, dona Margarida lembrou-se da antiga gravação que fizera do ronco do marido. Hoje, só dorme com o gravador ligado.

2 comentários:

  1. Legal!!! quem dorme com quem ronca, é triste!! será que tem cura? O pior é que quem ronca geralmente diz que não ronca!!kkkss e você ronca????????

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  2. Verdade!! quem ronca dorme profundamente e não sabe que ronca, mas as vezes ronca tanto que acorda com o próprio ronco. Kkkksss

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