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domingo, 1 de julho de 2012

OS VALORES DA EDUCAÇÂO ( GABRIEL CHALITA).

 

Os valores da educação

Por Gabriel Chalita


A educação é o bem maior de uma sociedade. Quando os cidadãos são alfabetizados e o conhecimento, universalizado, um país desenvolvido e justo – em que a democracia seja, de fato, praticada por todos e para todos – faz-se possível.
O valor da educação é inestimável; dizemos, assim, que sua importância é tamanha que se torna impossível medi-la. Entretanto, quando se fala em educação, há outra acepção do termo “valor” que não pode ser ignorada. Trata-se do valor medível, contável, que se traduz em investimentos financeiros na área.
De acordo com o Instituto de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o investimento público total em educação no Brasil cresceu de 4,7%, em 2000, para 5,7% do PIB em 2009. Espera-se cumprir a meta 20 do Plano Nacional de Educação (PNE) 2011– 2020, que estipula 7% do PIB a ser investido nesse campo; é o mínimo aceitável em um país onde a educação tem se mostrado deficiente.
Do valor inestimável da educação aos valores orçamentários aplicados nos diferentes níveis de ensino, é preciso notar que, apesar de melhorias, há muito a ser feito. Os mesmos números do Inep apontam que, na educação infantil, de 2000 a 2009, não houve evolução nos investimentos – sempre correspondentes a 0,4% do PIB. Já os anos finais do ensino fundamental (de 5ª a 8ª séries) foram os que receberam mais recursos: de 1,2%, passaram a 1,8% do PIB. É necessário o estabelecimento de políticas que considerem a significância de todas as etapas educacionais, de modo a conquistar-se a excelência no ensino e o interesse dos brasileiros por uma formação completa e contínua. O próprio Anísio Teixeira revoltava-se ao saber, depois da análise de estatísticas, que muitos dos alunos matriculados na rede pública não conseguiam dar continuidade a seus estudos, ficando frustrados mentalmente e incapacitados para alcançarem um padrão de vida de simples decência humana”.
Sabemos que investir nos professores é fundamental para que se alcance o objetivo de formar cidadãos conscientes, tanto para a vida quanto para o mercado de trabalho. Aos docentes, formação continuada, planos de carreira, revisão de salários, incentivo à participação em debates e na tomada de decisões que envolvam a educação no País; quem é educador sabe que profissio¬nais capacitados e satisfeitos transmitem com muito mais paixão e assertividade seus conhecimentos.
Merece nossa atenção, ainda, o conceito de escola de tempo integral, sonho alimentado, primeiramente, por Anísio Teixeira. Sua implantação na educação básica é a melhor solução para o desenvolvimento de crianças e de adolescentes. Ao passar mais tempo na escola, o aluno dedica-se com afinco aos estudos (e, por conseguinte, aprende melhor), socializa-se, pratica atividades lúdicas e esportivas, alimenta-se adequadamente, sente-se capaz e acolhido. Nesse processo, a participação dos pais ou dos responsáveis é essencial. Todos os envolvidos devem vislumbrar a escola como um espaço de luz, de pertencimento.
Quando valores financeiros são aplicados, de forma ética e planejada, no bem maior da sociedade, dá-se o valor – nesse caso, “reconhecimento, de um ponto de vista afetivo, da importância ou da necessidade (de algo ou alguém)”, como traz o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa – devido a alunos, a professores e a todo o País. Como afirmou Paulo Freire, “se a educação não pode tudo, alguma coisa fundamental a educação pode”. Assim, valorizá-la é ajudar a edificar o Brasil pelo qual trabalhamos – e no qual, entre percalços e vitórias, acreditamos.


A VIDA COMO ELA É ( GABRIEL CHALITA)

 

 

A VIDA COMO ELA É

Não celebramos os clássicos por acaso. Eles nos ensinam métodos de composição literária, refletem um momento dentro do tempo, mostram a cultura, costumes, movimentos sociais, estética dominante. Foi assim com o Romantismo, por exemplo, uma das mais fortes e produtivas correntes literárias. E foi assim também com o Realismo, que veio em seguida para trazer a obra literária para mais perto da realidade. Exagerou na crueza das situações e na nudez das descrições. Mas, em literatura, como na vida, parece certo que o meio-termo é que é o termo certo. E surgiu, nos dias de hoje, uma nova maneira de contar histórias, mesclando o descritivo e o analítico com o subjetivo e o emocional. É uma literatura mais cotidiana, mais a vida como ela é, como queria Nelson Rodrigues. A vida não é novela, mas um mestre da televisão pode tornar uma novela tão expressiva quanto a própria vida. Esse mestre é Walcyr Carrasco, que nos dá a surpresa de trazer à luz "A palavra não dita".
O livro de Walcyr é uma história sincera. Com toda a honestidade, o autor faz com que os personagens interajam, e não lhes esconde os sentimentos. Essa franqueza perpassa o relato inteiro, e as pessoas retratadas revelam suas almas, com as purezas, mesquinharias, temores e anseios que habitam todas as almas. Gente, sem os disfarces românticos ou os exageros realistas. São pessoas, encontrando-se e desencontrando-se. E, por isso mesmo, é a boa literatura, moderna e forte.
Moderna porque trata, do ponto de vista do conteúdo, de temas atuais, observados pelo olhar do jornalista que se acostumou a observar a vida social, a participar e até a alterar o seu rumo. Do ponto de vista da linguagem, é simples e direta, com traços de coloquialidade que trazem à tona os aspectos tribais presentes nos diferentes grupamentos. A naturalidade com que o paulista Walcyr Carrasco trata do linguajar do povo gaúcho, em especial dos jovens de Porto Alegre, revela uma boa pesquisa e um excelente espírito de observação.
Forte porque aborda corajosamente um tema relegado ao noticiário do chamado "mundo cão", e o faz com naturalidade, respeito, e principalmente honestidade.
Lá dentro, na trama narrativa, Walcyr Carrasco vai usando alguns artifícios. Um deles é o de explicar, como se fosse casualmente, termos, vocábulos e situações, com um propósito didático, mas que não soa como aula. E vai buscar apoio na própria linguagem dos jovens, para que tudo seja explicado para o jovem leitor na sua própria forma de comunicação. Coisa de escritor sensível ao mundo que o rodeia.
Mas é o conjunto de valores expressos na narrativa o que dá ao livro o peso pedagógico e que lhe dá motivo para ser comentado neste espaço.
A história de Walcyr Carrasco fala de sinceridade. De honestidade. De lealdade. As más ações contadas no livro não resultam em geral de má índole dos personagens, mas de contingências e circunstâncias. Porque o mundo é assim mesmo. As pessoas não fazem o mal, normalmente, para prejudicar, mas porque escolheram motivos e atitudes erradas diante da vida. O livro fala também que não se deve julgar as pessoas com base em idéias pré-concebidas. Cibele, a personagem principal, narradora, vai aprender isto a todo momento.
Por essas razões é que venho recomendar aos professores que trabalhem em sala o livro "A palavra não dita", de Walcyr Carrasco. Evidentemente os professores terão que destacar e corrigir dois ou três erros de revisão - coisa rara numa editora séria como a Moderna, mas que não comprometem a qualidade geral do livro. É claro também que os professores não deverão abandonar os clássicos, mas uma leitura como esta, complementarmente, ajuda a entender o mundo. O mundo como ele é.

Revista Profissão Mestre, outubro/2007
Gabriel Chalita

LIÇÕES POÉTICAS ( GABRIEL CHALITA).

 

Lições poéticas

“Não quero amar,/Não quero ser amado./Não quero combater,/Não quero ser soldado./– Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples”, ensina-nos o poeta Manuel Bandeira em seu poema “Belo belo”, publicado na obra Lira dos cinqüent’anos. A lição da singeleza, da beleza, contida na simplicidade.
Por meio do discurso desse notável poeta, sentimo-nos propensos a refletir sobre a grandeza existente nas coisas singelas e sobre a forma como elas conduzem nossos corações e nossas mentes ao caminho do que é realmente importante para a existência humana. Possibilitar essa visão apurada da vida contribui para o entendimento de que a felicidade é composta pelas ações e pelas sensações presentes nas coisas mais corriqueiras.
Esse aprendizado deve ser um dos primeiros objetivos da educação. Nas disciplinas do currículo regular, nas numerosas atividades que configuram o ano letivo das escolas – semanas culturais, passeios, projetos e estudos do meio –, é necessário que os educadores propiciem aos aprendizes a consciência do que é o bem, o bom e o belo. Até porque essa tríade, capaz de dotar o espírito e a mente humana do viço e da energia essenciais à edificação de ideais nobres, cria um círculo virtuoso fundamental à convivência social pacífica, ao desenvolvimento do caráter ético e ao fortalecimento de valores como honestidade, lealdade, respeito, solidariedade e senso de justiça.
Essas e tantas outras percepções provêm do aprendizado adquirido na família e das influências recebidas pelo meio. E é aí que entra o trabalho sensível dos educadores, cuja missão é ensinar os aprendizes a lerem as partituras da vida, equilibrando razão e emoção, competência técnica e amor.
Em seus versos irretocáveis, Manuel Bandeira sintetiza parte dos conceitos filosóficos descritos por Platão a respeito do belo, tanto em seu texto Fedro quanto em República. No primeiro, o filósofo nos diz: “(…) na beleza e no amor que ela suscita, o homem encontra o ponto de partida para a recordação ou a contemplação das substâncias ideais”. Já em República, Platão compara o bem ao Sol, que dá aos objetos não apenas a possibilidade de serem vistos, mas também a de serem gerados, de crescerem e de se nutrirem. O pensamento filosófico e a poesia não oferecem caminhos inequívocos para a felicidade. Melhor do que isso: apontam caminhos para que possamos ter o prazer de encontrá-la por nossos próprios esforços.
Assim deve ocorrer também com a educação, cujo compromisso maior precisa ser o de proporcionar escolhas, além de fornecer aos seres em formação os instrumentos básicos para suas jornadas pessoais. Mestres e aprendizes têm de compartilhar a fascinante aventura da troca e da descoberta, de modo que, juntos, ampliem a capacidade de olhar as paisagens da vida com os olhos de ver. Carlos Drummond de Andrade – outro mestre sagrado da poesia – já falava sobre isso em seu belíssimo poema “A flor e a náusea”, do livro A rosa do povo: “Uma flor nasceu na rua! (…)/Uma flor ainda desbotada/ilude a polícia, rompe o asfalto./Façam completo silêncio, paralisem os negócios,/garanto que uma flor nasceu. (…)/É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.”
Essa visão privilegiada dos poetas e dos filósofos tem de estar no cerne das propostas educacionais. É preciso utilizar uma pedagogia que revele o bom, o bem e o belo em sua essência. No ensaio “Inquietudes na poesia de Drummond”, da obra Vários escritos, o professor Antonio Candido discorre sobre a “função redentora da poesia”.
No dia a dia das escolas, é necessário encontrar um tempo para resgatar os dizeres dos grandes visionários, para que possamos nos educar e educar os demais para olhar o asfalto e, ainda assim, enxergar a flor.

Fonte: revista Profissão Mestre (por Gabriel Chalita)