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domingo, 1 de julho de 2012

LIÇÕES POÉTICAS ( GABRIEL CHALITA).

 

Lições poéticas

“Não quero amar,/Não quero ser amado./Não quero combater,/Não quero ser soldado./– Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples”, ensina-nos o poeta Manuel Bandeira em seu poema “Belo belo”, publicado na obra Lira dos cinqüent’anos. A lição da singeleza, da beleza, contida na simplicidade.
Por meio do discurso desse notável poeta, sentimo-nos propensos a refletir sobre a grandeza existente nas coisas singelas e sobre a forma como elas conduzem nossos corações e nossas mentes ao caminho do que é realmente importante para a existência humana. Possibilitar essa visão apurada da vida contribui para o entendimento de que a felicidade é composta pelas ações e pelas sensações presentes nas coisas mais corriqueiras.
Esse aprendizado deve ser um dos primeiros objetivos da educação. Nas disciplinas do currículo regular, nas numerosas atividades que configuram o ano letivo das escolas – semanas culturais, passeios, projetos e estudos do meio –, é necessário que os educadores propiciem aos aprendizes a consciência do que é o bem, o bom e o belo. Até porque essa tríade, capaz de dotar o espírito e a mente humana do viço e da energia essenciais à edificação de ideais nobres, cria um círculo virtuoso fundamental à convivência social pacífica, ao desenvolvimento do caráter ético e ao fortalecimento de valores como honestidade, lealdade, respeito, solidariedade e senso de justiça.
Essas e tantas outras percepções provêm do aprendizado adquirido na família e das influências recebidas pelo meio. E é aí que entra o trabalho sensível dos educadores, cuja missão é ensinar os aprendizes a lerem as partituras da vida, equilibrando razão e emoção, competência técnica e amor.
Em seus versos irretocáveis, Manuel Bandeira sintetiza parte dos conceitos filosóficos descritos por Platão a respeito do belo, tanto em seu texto Fedro quanto em República. No primeiro, o filósofo nos diz: “(…) na beleza e no amor que ela suscita, o homem encontra o ponto de partida para a recordação ou a contemplação das substâncias ideais”. Já em República, Platão compara o bem ao Sol, que dá aos objetos não apenas a possibilidade de serem vistos, mas também a de serem gerados, de crescerem e de se nutrirem. O pensamento filosófico e a poesia não oferecem caminhos inequívocos para a felicidade. Melhor do que isso: apontam caminhos para que possamos ter o prazer de encontrá-la por nossos próprios esforços.
Assim deve ocorrer também com a educação, cujo compromisso maior precisa ser o de proporcionar escolhas, além de fornecer aos seres em formação os instrumentos básicos para suas jornadas pessoais. Mestres e aprendizes têm de compartilhar a fascinante aventura da troca e da descoberta, de modo que, juntos, ampliem a capacidade de olhar as paisagens da vida com os olhos de ver. Carlos Drummond de Andrade – outro mestre sagrado da poesia – já falava sobre isso em seu belíssimo poema “A flor e a náusea”, do livro A rosa do povo: “Uma flor nasceu na rua! (…)/Uma flor ainda desbotada/ilude a polícia, rompe o asfalto./Façam completo silêncio, paralisem os negócios,/garanto que uma flor nasceu. (…)/É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.”
Essa visão privilegiada dos poetas e dos filósofos tem de estar no cerne das propostas educacionais. É preciso utilizar uma pedagogia que revele o bom, o bem e o belo em sua essência. No ensaio “Inquietudes na poesia de Drummond”, da obra Vários escritos, o professor Antonio Candido discorre sobre a “função redentora da poesia”.
No dia a dia das escolas, é necessário encontrar um tempo para resgatar os dizeres dos grandes visionários, para que possamos nos educar e educar os demais para olhar o asfalto e, ainda assim, enxergar a flor.

Fonte: revista Profissão Mestre (por Gabriel Chalita)

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