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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

ARTIGO PUBLICADO NA REVISTA PÁTIO ENSINO MÉDIO ANO 4 Nº 14 SET/ 2012. O DIFÍCIL EQUILÍBRIO ENTRE TEORIA E PÁTICA.

 O difícil equilíbrio entre teoria e prática

Reportagem // MARCOS GIESTEIRA

A falta de professores com formação didático-pedagógica e de experiência na área lecionada é um dos problemas enfrentados pelas instituições de educação profissional e tecnológica
Até pouco tempo atrás era comum a ideia de que o trabalhador precisava apenas saber executar o seu ofício. A obrigação de aprofundar os estudos seria responsabilidade apenas de gente diplomada, como engenheiros, médicos e advogados. Essa premissa preconceituosa orientou o ensino técnico no Brasil durante muitos anos e moldou professores para atuar conforme uma lógica que priorizava a prática.
Com a política de ampliação do número de vagas e cursos, impulsionada nos últimos anos pela reformulação da Rede Federal de Educação Profissional Tecnológica e pela criação dos Institutos Federais, a contratação de novos docentes tornou-se necessária e trouxe consigo um efeito contraditório: uma leva de novos professores carentes de experiência na aplicação dos conteúdos.
A legislação em vigor exige que, para atuar no ensino técnico, o professor tenha graduação universitária. A partir desse pré-requisito, a formação mínima e os critérios para assumir a função, como o da experiência prática, são estabelecidos nos editais de concursos para provimento de vagas em cada instituição, que tem autonomia para definir suas exigências.
Mesmo que o ingresso de professores com maior formação tenha contribuído para melhorar a qualidade dos cursos, uma vez que parte desses profissionais tem longa trajetória acadêmica — muitos inclusive são mestres e doutores —, o resultado é uma grande disparidade no nível dos educadores que atuam nesse segmento. “Necessitamos de uma formação pedagógica que trate, além dos elementos principais do exercício da docência, da especificidade que é trabalhar com o ensino técnico”, reconhece o diretor de Desenvolvimento Institucional do Instituto Federal do Rio Grande do Sul, Claudio Farias. “Leciono diversas disciplinas de administração e economia, mas, assim como meus colegas das áreas de contabilidade, direito e engenharias, nossas graduações não disponibilizam licenciatura”, destaca.
Segundo o coordenador executivo do Programa Especial de Graduação de Formação de Professores para a Educação Profissional, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Luiz Gilberto Kronbauer, é comum haver professores com saberes consolidados em suas áreas, mas que não sabem planejar atividades de ensino e aprendizagem. “Não basta ter didática e metodologia adequada ao campo de conhecimento. É preciso saber planejar as atividades para o perfil etário, psicológico, econômico e cultural dos estudantes”, salienta Kronbauer.

Conhecimento prático e teórico

A falta de profissionais com formação didático-pedagógica e experiência prática impede que a preparação do aluno ocorra de maneira integral, provoca o seu desinteresse e, o mais grave, não atende à principal premissa da modalidade: o rápido ingresso dos jovens no mercado de trabalho. Oferecer uma aprendizagem apropriada e ajudar os alunos a desenvolver as habilidades necessárias é tarefa dos professores, e a vivência auxilia bastante nesse processo. “O desafio consiste precisamente em aliar conhecimento prático e teórico em prol da elevação da qualidade do ensino técnico, o que, em certa medida, depende da experiência que se adquire nas salas de aula, nas bancadas e nos laboratórios”, concorda o secretário de Educação Profissional e Tecnológica do Ministério da Educação (MEC), Marco Antonio de Oliveira.
Até mesmo em instituições com histórico protagonismo na área, como o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), ocorrem dificuldades para contratar docentes capacitados. “Ainda é difícil encontrar profissionais que tenham ao mesmo tempo formação tecnológica aliada à pedagógica e que saibam aplicar tanto as modernas tecnologias educacionais quanto os recursos de aprendizagem”, afirma a coordenadora do Programa Nacional de Capacitação de Docentes do SENAI, Loni Manica.

Período de transformações

Uma das explicações para o segmento ter se estruturado de maneira dicotômica é o período de transformações por que ele passa no Brasil. De acordo com o diretor de Educação Profissional e Tecnológica do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG), James William Goodwin Júnior, durante muito tempo houve uma cultura generalizada de que esse tipo de ensino era prioritariamente voltado para as classes mais pobres da sociedade — um curso de “segunda categoria” — e de que deveria atender, antes de mais nada, às demandas imediatas de empregos.
O efeito disso foi um processo educativo que não privilegiava a reflexão sobre a técnica, sua relação com a ciência e seu lugar na sociedade. “Boa parte da geração de professores em atividade no país não teve uma formação que os preparasse para isso, mas felizmente esse quadro está mudando”, garante Goodwin Júnior. Ele atribui tal mudança ao fato de a educação profissional ter passado a ser vista como um campo educacional, envolvendo aspectos didáticos e pedagógicos e a se relacionar com a produção científica e a pesquisa.
Os grandes desafios relacionados às mudanças no mundo do trabalho, principalmente no que se refere aos efeitos das inovações tecnológicas no aumento das exigências de qualidade na produção e nos serviços, também influenciaram essa realidade, afirma a coordenadora pedagógica do Tecpuc, instituição de ensino técnico e médio integrado do Grupo Marista, Ana Carolina Furis. “Esses elementos têm um impacto significativo na prática desses profissionais quando atuam como docentes, pois se faz necessário ter maior atenção às questões relacionadas à ética, à justiça social, ao trabalho em grupo e ao conhecimento científico”, afirma ela.
A primeira barreira para reverter tal dissonância é acabar com a resistência de profissionais de outras áreas em relação à formação pedagógica. Existe uma convicção instalada de que o domínio dos conteúdos específicos de atuação é suficiente para se cumprir satisfatoriamente o papel da docência. Por outro lado, faz-se confusão entre a preparação para atuar no ensino técnico e no nível superior. “O fato de ser mestre ou doutor em determinada área de conhecimento e aplicação não significa que se esteja preparado para atuar na educação básica, seja ela profissional ou não”, avisa Kronbauer.

Mudança na legislação

Somente após a mudança de posturas como essa é que poderão ser efetivamente enfrentados os principais desafios apontados pelo MEC nesse âmbito: implantar cursos de formação pedagógica específicos para a modalidade, estimular os professores para que se submetam a um processo contínuo de qualificação e requalificação e ampliar a oferta de treinamentos presenciais e a distância.
Enquanto isso não se torna realidade, Claudio Farias sugere uma alternativa bem mais plausível: a mudança da legislação que regula a contratação de educadores nas instituições públicas federais, ampliando a possibilidade de ingresso àqueles que têm experiência profissional e não apenas os que têm instrução acadêmica. “Muitos cursos técnicos poderiam ter suas aulas ministradas por professores com formação técnica. É o caso, por exemplo, daqueles vinculados aos setores de edificações, cozinha e hotelaria, entre outros”, indica.
A criação de institutos de ensino superior que construam currículos e ofereçam programas para a formação de professores de todos os eixos tecnológicos, em parceria com os estados, seria outro passo importante na avaliação do coordenador de Ensino Médio e Técnico do Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza, Almério Melquíades Araújo.
Falta política de capacitação
As mudanças na educação profissional ainda não são acompanhadas por um programa de formação que defina as competências do professor


A inexistência de uma política consolidada de capacitação docente para atuar na educação profissional, respeitando as especificidades desse modelo, é um dos equívocos citados pela coordenadora pedagógica do Tecpuc, Elaine Cristina Nascimento. Em sua avaliação, a formação dos professores que atuam no ensino técnico precisará superar o histórico da fragmentação dos conhecimentos e do improviso. “Embora os cursos de licenciatura já privilegiem em seus currículos uma preparação com base na pesquisa-reflexão-ação, precisariam abordar com maior especificidade a relação com o mundo do trabalho”, pondera.
É importante lembrar que as mudanças na concepção da educação profissional exigiram a reformulação das práticas formativas já consolidadas. Hoje se exigem educadores com qualificação científica e que ainda consigam preparar os estudantes para um mercado em constante ampliação e mudança. “Um aspecto que precisa ser mais bem definido é o tipo de educação profissional que se quer”, afirma James William Goodwin Júnior, do CEFET-MG. Ele aponta a necessidade de módulos rápidos, para capacitação imediata em atividades específicas, e uma demanda ainda maior de uma base técnico-tecnológica que possa sustentar o desenvolvimento econômico do país. “As aptidões necessárias para atuar como professor são diferentes em ambos os casos, e não se podem misturar as coisas, sob pena de não se fazer nenhuma das duas bem-feitas”, alerta.
Recursos do Pronatec
Recentemente, a modalidade voltou a ganhar destaque nos jornais com o lançamento do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec). Apesar de estar focado na oferta de cursos — a meta é disponibilizar cerca de 8 milhões de vagas nos próximos quatro anos —, o Pronatec também destinará verbas para a formação docente por meio de subprogramas como o Brasil Profissionalizado, que envolve a construção e a reforma de escolas técnicas estaduais, incluindo laboratórios, capacitação e apoio pedagógico, e a rede E-TEC, voltada para a promoção de treinamentos a distância, uma ferramenta que cada vez mais conta com a confiança e o incentivo do governo.
Até o momento, de acordo com o MEC, as duas iniciativas já contribuíram para a formação de 1,2 mil professores e gestores e foram geradas 1,8 mil vagas em programas de pós-graduação. “O que ainda se faz necessário é uma melhor articulação entre as redes de educação profissional, as universidades federais e as instituições ofertantes de cursos de formação continuada, assim como a realização de acordos de cooperação interinstitucional, nacionais e internacionais e a execução de estágios técnicos em laboratórios e em empresas”, diz o secretário Marco Antonio de Oliveira.
Formação em serviço
Sem esperar pelo Estado, algumas instituições já promovem a capacitação de seus professores
Pioneiro no assunto, o Centro Paula Souza — que administra 207 Escolas Técnicas (Etecs) e 55 Faculdades de Tecnologia (Fatecs) estaduais em 159 municípios paulistas — realiza a preparação técnica e pedagógica de seus docentes do ensino técnico de maneira contínua há 23 anos. A ação tem atingido anualmente mais de 25% dos quadros das Etecs e também a maioria dos coordenadores e diretores. As capacitações são direcionadas para as várias áreas profissionais e eixos tecnológicos, conforme as bases científicas e as competências a serem desenvolvidas em cada curso. “Os projetos especiais de formação de professores para graduados de diferentes áreas têm amenizado o problema nos últimos 30 anos em São Paulo”, destaca o coordenador de Ensino Médio e Técnico, Almério Melquíades Araújo.
Na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), existe o Programa Especial de Graduação de Formação de Professores para a Educação Profissional (PEG), um tipo de licenciatura que forma docentes para que atuem em diversas modalidades tecnológicas. O PEG iniciou em 2009 e busca desenvolver competências como a resolução de problemas pedagógicos, o planejamento de atividades e a gestão educacional dos alunos. “Posso afirmar que, ao ingressarem no curso, os estudantes não têm a mínima noção das questões básicas da área de educação. Porém, no decorrer das aulas, vai se instaurando gradativamente uma familiaridade com as subáreas, até muito mais perceptível do que nas licenciaturas”, conta Luiz Gilberto Kronbauer.
O SENAI também não espera por políticas públicas e capacita os seus profissionais por meio do Programa Nacional de Capacitação de Docentes (PNCD). O objetivo é apoiar a melhoria da qualidade dos educadores e dos processos educacionais, mediante a consolidação da metodologia de formação por competências. A iniciativa prevê a habilitação pedagógica de 6,5 mil docentes e a capacitação tecnológica de outros 4,5 mil durante o triênio 2012-2014, em cursos de preparação flexível, modular, com base em habilidades, presencial e a distância. Para complementar a parte pedagógica, a entidade desenvolve ainda um plano que prevê atualização em 38 áreas tecnológicas, com base nos itinerários nacionais que foram desenhados em consonância com as demandas da indústria.
O CEFET-MG aposta no Mestrado em Educação Tecnológica e no Curso de Formação de Professores para fortalecer os aspectos pedagógicos e didáticos do ensino técnico. Oferece, além disso, políticas de incentivo à qualificação acadêmica dos docentes — com bolsas e licenças para mestrado e doutorado e participação em eventos científicos —, além de programas de pesquisa, que vão desde a pós-graduação ao técnico de nível médio. “A ideia é qualificar os professores para criar um ambiente que valorize o saber-fazer, em que se saiba a melhor maneira de ensinar e aprender, em que se reflita sobre o que se sabe e o que se faz, como isso ocorre ou qual seu lugar e seu impacto na sociedade”, explica James William Goodwin Júnior.


Observação: Este conteúdo encontra-se publicado no seguinte endereço: http://www.grupoa.com.br/site/revista-patio/artigo/
Páginas da Revista: 40 - 41.


Créditos das Imagens:
Ilustração ©iStockphoto.com/danleap
Fabiana Carvalho/divulgação
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Gastão Guedes/divulgação

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