SAUDADE NÃO É
Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o
tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, doem. Dói bater a cabeça na quina
da mesa. Dói morder a língua, cárie, cólica e pedra no rim. Mas o que mais dói,
é a saudade. Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da
infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade de um
amigo imaginário que nunca existiu. Doem essas saudades todas. Saudade é não
saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber
como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as
lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que
nada preenche.




